Culpa por não estar bem: quando o “devia estar grata/o” só aumenta o peso

Culpa por não estar bem: quando o “devia estar grata/o” só aumenta o peso

Há experiências emocionais que não nascem apenas do que sentimos — nascem também da forma como julgamos aquilo que sentimos. Uma delas é a culpa por não estar bem quando, aparentemente, tudo deveria estar a correr bem.

Muitas pessoas descrevem este estado de forma semelhante: existe tristeza, cansaço ou desmotivação, mas em vez de acolherem essa experiência, surge uma voz interna que questiona a sua legitimidade. “Tenho saúde”, “há quem esteja pior”, “não tenho motivos para me queixar”. O sofrimento inicial mistura-se então com autocrítica. E aquilo que poderia ser apenas um momento emocional torna-se mais pesado.

Do ponto de vista psicológico, esta dinâmica está profundamente ligada à comparação social — um mecanismo evolutivo que ajudou os seres humanos a situarem-se no grupo e a regularem comportamentos — e a crenças internalizadas sobre o que significa ser resiliente ou grato. Quando estas crenças se tornam rígidas, deixam de ser reguladoras e passam a funcionar como padrões de avaliação interna exigentes. Em vez de promoverem adaptação, alimentam inadequação.

Na perspetiva cognitivo-comportamental, observamos aqui um padrão frequente: pensamentos aparentemente racionais que escondem distorções emocionais. A lógica pode parecer sólida — reconhecer privilégios, relativizar dificuldades — mas o efeito psicológico é invalidar a própria experiência interna. O cérebro não responde bem a essa invalidação. Quando emoções são negadas, tendem a intensificar-se ou a permanecer sem processamento.

É por isso que importa distinguir entre gratidão autêntica e gratidão imposta. A gratidão que emerge de forma genuína é flexível e coexistente — permite reconhecer o que é positivo sem negar aquilo que dói. Já a gratidão que surge como obrigação interna transforma-se numa exigência emocional: um “dever sentir”. Nesse momento, deixa de ser um recurso regulador e passa a ser mais uma fonte de pressão.

A investigação psicológica e neurocientífica tem vindo a demonstrar que a experiência emocional humana é naturalmente complexa e ambivalente. Emoções não funcionam em regime exclusivo. É possível sentir reconhecimento pelo que existe e, simultaneamente, tristeza pelo que falta. Quando aceitamos essa coexistência, o sistema emocional ganha espaço para integração, e a autocompaixão substitui a autocrítica como forma de regulação.

A mudança raramente passa por eliminar a tristeza através da comparação com realidades mais difíceis. Passa por validar a experiência emocional como legítima, independentemente da sua justificabilidade externa. Só nesse espaço de validação a gratidão pode regressar ao seu papel natural — não como regra moral, mas como recurso de bem-estar.

Sentir dor não diminui aquilo que tens.
Não te torna ingrata/o.
Torna-te humana/o.

Se tens carregado culpa por te sentires em baixo, mesmo quando tudo parece indicar que deverias estar bem, vale a pena lembrar isto: o sofrimento emocional não precisa de prova ou comparação para merecer cuidado. Compreendê-lo é já uma forma de começar a cuidar.

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Tu não estás a falhar por não estares bem. Estás a sentir. E isso já merece respeito.